Acho que nunca soube responder direito o que eu queria ser.
Não porque me faltassem interesses... era justamente o contrário. Eu queria saber de tudo, experimentar muitas coisas, entender gente, animais, relações, comportamentos. Sempre fui curiosa demais para uma resposta só.
Talvez eu seja multipotencial desde antes de saber que essa palavra existia.
Aos 13 anos fui fazer teatro, em uma oficina da Olga Reverbel. Mas atuar nunca foi exatamente o que me interessou. Eu gostava mesmo era de dirigir as esquetes, pensar no que a gente podia fazer, juntar as pessoas, organizar a cena. Ainda muito jovem, comecei também a ministrar oficinas de teatro como voluntária na periferia de Porto Alegre.
Hoje, olhando para trás, isso me diverte um pouco... eu tinha 13, 14 anos e já estava fazendo uma coisa que repetiria de muitas formas pela vida: inventando propostas, organizando possibilidades e chamando gente para fazer junto.
Na mesma época eu frequentava a ACM e foi ali que comecei a aprender sobre liderança. Depois, no Ensino Médio, fiz Magistério, fui líder estudantil e presidente do Grêmio Estudantil.
Acho que minha relação com a política começou aí.
Não estou falando de partido. Estou falando de perceber as coisas, me posicionar, defender direitos, reunir pessoas e acreditar que a gente pode interferir um pouco na realidade ao redor.
Eu fazia isso antes de saber dar nome para isso.
Quando chegou a hora do vestibular, talvez já houvesse algumas pistas de que minha vida profissional não seria muito convencional. Fiz vestibular para Artes Cênicas, Jornalismo e Veterinária.
Passei nos três... e escolhi Veterinária.
A escolha foi bem menos romântica do que poderia parecer. Achei que seria uma profissão com um futuro financeiro melhor.
Só esqueci de considerar que eu precisaria lidar com o sofrimento dos animais.
Não consegui.
Saí da Veterinária e fui parar na Biologia. E foi na Biologia que encontrei novamente o professor Sérgio, que tinha sido meu professor no Ensino Fundamental.
Eu adorava desenhar as estruturas que estudávamos e dizia a ele que, quando terminasse aquele curso, queria pintar uma parede inteira com todas aquelas estruturas maravilhosas.
E ele, com uma delicadeza que nunca esqueci, me disse mais ou menos assim: “Tatiana, se tu quer terminar esse curso para pintar uma parede, talvez tu esteja no curso errado. Vai fazer Artes.”
Fui.
E acho que ali comecei a me encontrar.
Não porque a arte tenha entrado na minha vida naquele momento... ela já estava lá fazia tempo.
Minhas avós eram costureiras. Cresci perto de mulheres que faziam coisas com as mãos, inventavam, transformavam tecidos e materiais. Com a vó Zena aprendi a fazer bonecas.
As bonecas ficaram.
Atravessaram diferentes momentos da minha vida e hoje são uma das minhas linguagens criativas. Continuo fazendo uma por uma... e nenhuma fica exatamente igual à outra.
Eu gosto disso.
Nunca tive muita atração pelo perfeitamente igual. Gosto do detalhe que muda, daquilo que escapa da repetição, das pequenas diferenças que fazem alguma coisa ser só aquela e nenhuma outra.
As singularidades me encantam... nas bonecas e nas pessoas.
E talvez exista aí uma pista importante sobre quase tudo que veio depois.
Boa parte da minha vida acabou sendo dedicada a criar oportunidades para que as pessoas pudessem ser reconhecidas pelo que são, e não apenas pelo que se esperava que fossem. Para que suas diferenças fossem respeitadas, suas singularidades valorizadas e para que tivessem oportunidades reais de descobrir e desenvolver suas próprias possibilidades.
Depois das Artes Visuais, me apaixonei pela possibilidade de ensinar aquele encantamento. Não apenas ensinar técnicas, mas compartilhar a descoberta de que podemos imaginar alguma coisa e encontrar um jeito próprio de fazê-la existir.
Foi assim que cheguei à Arte-Educação.
Foi também nessa formação que precisei fazer um estágio na diversidade e conheci a APAE.
Fui para fazer um estágio... e fiquei uma parte enorme da minha vida.
Foi ali que muita coisa começou a ganhar outro tamanho.
Trabalhar com pessoas com deficiência me fez querer saber mais. Eu via coisas acontecendo através da arte que eram muito evidentes para mim, mas queria compreender melhor. Queria encontrar referências, ampliar espaços, defender aquilo que estava vendo, entender aprendizagem, desenvolvimento, comportamento, vínculos, grupos, diferenças e possibilidades.
E aí começou uma sequência que me acompanha até hoje: encontro alguma coisa que não sei e vou estudar.
Vieram Arteterapia, Psicopedagogia, Ludopedagogia, Psicologia Social e outras formações.
Não fui colecionando títulos...
Fui colecionando perguntas.
E uma pergunta quase sempre me levava para outro lugar.
Dentro da própria APAE aconteceu a mesma coisa. Comecei pela arte, fui para os projetos, para a coordenação, para a gestão. Quanto mais minha atuação crescia, mais eu precisava compreender outras coisas.
E foi convivendo tão de perto com as diferenças que algumas convicções foram ficando muito fortes em mim.
Nem sempre o que limita uma pessoa está nela. Às vezes faltam oportunidades. Faltam espaços. Falta alguém enxergar possibilidades onde todo mundo aprendeu a enxergar limites.
Passei a acreditar cada vez mais que pertencer não deveria significar tornar-se parecido. Que incluir não pode ser encaixar alguém em um modelo já pronto. Que cada pessoa precisa ter a oportunidade de descobrir o que tem de seu, desenvolver suas possibilidades e encontrar seu jeito de estar no mundo.
A defesa dos direitos das pessoas com deficiência foi me aproximando das políticas públicas e, em algum momento, aquela guria que tinha sido presidente do Grêmio Estudantil reapareceu com bastante força.
Surgiu a oportunidade de entrar na gestão pública e, depois, de ser secretária municipal.
Passei pelo desenvolvimento social, direitos humanos, trabalho, cidadania, empreendedorismo, educação, cultura, esporte e lazer.
Dito assim, parece que troquei de assunto muitas vezes.
Eu não sinto dessa forma.
O assunto continuava sendo gente...
O que mudava era o lugar de onde eu olhava.
Na arte, eu podia olhar para uma pessoa. Na educação, para seus processos de aprendizagem. Na Arteterapia, para suas possibilidades de expressão. Na Psicologia Social, para as relações e os grupos. Na gestão, para as instituições. Nas políticas públicas, para uma cidade inteira.
A lente foi aumentando... a pergunta continuou muito parecida.
Que oportunidades estamos criando para que cada pessoa possa desenvolver aquilo que tem de seu?
Porque nunca me interessou uma ideia de desenvolvimento humano que tente produzir pessoas mais adequadas, mais iguais ou mais fáceis de caber.
Interessa-me o contrário.
Interessa-me pensar em espaços onde alguém possa pertencer sem precisar deixar sua singularidade do lado de fora.
Mais tarde veio a Moda.
E dessa vez eu fui estudar porque quis me dar um presente.
Depois de tantas formações que nasceram das necessidades profissionais, queria estudar alguma coisa simplesmente porque aquilo me interessava.
Claro que não demorou muito para eu encontrar relações...
A moda fala de arte, comportamento, cultura, identidade, escolhas. O que vestimos talvez seja uma das formas mais cotidianas de criação que existem. Todos os dias colocamos alguma coisa sobre o corpo e saímos por aí dizendo um pouco de nós sem abrir a boca.
Não tinha como eu não gostar.
Hoje existe uma palavra que me ajuda a compreender toda essa história: multipotencialidade.
Sou multipotencial por essência.
Não foi estudar muitas coisas que me tornou assim. Acho que estudei muitas coisas justamente porque sou assim.
Minha curiosidade nunca respeitou muito as fronteiras entre as áreas. Gosto de descobrir relações, misturar repertórios, puxar um fio daqui e descobrir que ele conversa com outro que estava lá do outro lado.
Arte, educação, comportamento, gestão, política, escrita, trabalho manual, moda, desenvolvimento humano...
Não consigo colocar tudo isso em gavetas muito fechadas.
Minha cabeça gosta de construir pontes.
Talvez por isso a imagem do caleidoscópio faça tanto sentido para mim.
As peças estão ali. São as mesmas. Mas basta um pequeno movimento e elas encontram outra combinação, formam outra imagem, mostram uma possibilidade que antes não estava visível.
Meu caleidoscópio criativo funciona um pouco assim.
A artista conversa com a educadora. A educadora encontra a gestora. A artesã encontra a pesquisadora. A política pública encontra a arte. A escrita encontra o desenvolvimento humano. O teatro que começou aos 13 anos reaparece, tantos anos depois, na minha pesquisa sobre a filosofia do palhaço. E as bonecas que aprendi com a vó Zena continuam aqui, lembrando que nenhuma precisa ser exatamente igual à outra para ser inteira.
As peças continuam lá...
O que muda são as combinações.
Talvez por isso a criatividade continue aparecendo em quase tudo que faço.
Criar abre possibilidades.
Mostra que uma coisa não precisa ser feita sempre do mesmo jeito. Que pode existir outra resposta, outra combinação, outro caminho.
E talvez seja isso que eu esteja fazendo desde aquela menina que preferia dirigir a peça em vez de estar no centro do palco...
Criar e estruturar espaços para que alguma coisa aconteça.
Espaços onde as pessoas possam experimentar, descobrir possibilidades, desenvolver aquilo que têm de próprio. Onde as singularidades tenham valor, as diferenças sejam respeitadas e pertencer não exija deixar uma parte de si do lado de fora.
E, principalmente, para que cada um possa entrar na cena sendo quem é.