Cheguei aos 50 anos achando que já deveria saber algumas coisas sobre mim. Deveria... A vida, como sempre, achou graça. Em vez de respostas, trouxe perguntas. Mudou meu corpo, bagunçou meu sono e espalhou algumas emoções pela casa.
A menopausa chegou mexendo nos móveis sem pedir licença.
Foi nesse tempo de estranhamentos que uma frase da minha mãe voltou à minha memória. Ela dizia que minha vó Zena era a pior adolescente que ela conhecia. A casa estava sempre cheia de amigas, ela gostava dos bailinhos, das conversas, dos encontros e de ter gente por perto.
Durante muito tempo, achei apenas engraçado. Hoje percebo que minha mãe estava fazendo uma leitura muito bonita sobre a própria mãe. Ela visualizava uma mulher que continuava se descobrindo... mesmo que nenhuma de nós ainda tivesse encontrado uma palavra para aquilo.
Minha avó nasceu em 1925. Era costureira, modelista e revolucionária. Uma mulher muito atípica para sua época. Não revolucionária dessas que aparecem nos livros, fazem discursos ou sobem em palanques. A revolução dela acontecia no cotidiano, no corpo e nas escolhas que fazia quando o mundo esperava que uma mulher simplesmente obedecesse.
Quando foi morar na capital, provavelmente com uns 30 anos, deixou de usar somente vestidos, como era esperado das mulheres. Fez seus próprios slacks para trabalhar. Slacks eram calças. Hoje parece uma informação pequena. Uma mulher vestir uma calça... e daí?
Naquela época, calças eram tratadas como roupa de homem. Às mulheres cabiam os vestidos, as regras e um espaço muito bem desenhado para que não se movessem demais. Minha avó pegou o tecido, fez o molde e costurou para si outra possibilidade. Gosto muito dessa imagem. Ela não esperou que o mundo criasse uma roupa adequada para a vida que desejava viver. Fez sua própria calça e foi trabalhar.
A vó Zena teve seis filhos e ficou viúva aos 49 anos. Quando eu nasci, ela tinha 50 e provavelmente também estava atravessando a menopausa.
Eu nunca havia feito essa conta.
Eu me tornei avó aos 49 anos. Quase na mesma idade em que minha avó me recebeu em sua vida, eu recebi meu neto na minha. Talvez tenha sido preciso ocupar esse lugar para começar a olhar para ela de outra maneira. Aos 49, eu sabia muito bem que não havia deixado de ser mulher para me tornar avó. Então, por que nunca havia pensado na mulher de 50 anos que existia dentro da minha vó Zena?
Quando somos crianças, parece que as avós já nascem avós. Elas fazem bolos, costuram bainhas, contam histórias, sabem onde estão as coisas perdidas e resolvem problemas com uma habilidade quase suspeita. Raramente imaginamos que existe uma mulher vivendo seus próprios medos, desejos e transformações debaixo daquele título.
Só agora consigo encontrar a mulher que existia para além da minha avó...
Quando eu cheguei ao mundo, ela também estava chegando a um lugar desconhecido. Seu corpo mudava, a viuvez havia mudado sua vida e havia seis filhos, cinco netos, responsabilidades, memórias e uma mulher inteira tentando descobrir como continuar.
Naquele tempo, pouco se falava sobre menopausa. As mulheres sentiam os calores, as mudanças de humor, o cansaço e as inquietações... e seguiam. Talvez abanassem o rosto, abrissem uma janela e depois fossem fazer o almoço. O corpo podia estar promovendo uma revolução, mas o bolo no forno não parecia muito preocupado com isso.
Minha avó continuou. Mais do que isso... ela continuou se inventando. A casa cheia de amigas dizia alguma coisa... Os bailinhos também...
Aos 80 anos, quando a lógica parecia esperar que ela diminuísse o ritmo e assistisse à vida de uma poltrona, minha avó tinha redes sociais e virava noites conversando por ali. Talvez ela já soubesse, antes de todos nós, que a internet também poderia ser uma casa cheia de amigas.
Ela fez curso de informática, praticou yoga, fez ginástica rítmica e se interessou por tudo o que aparecesse pela frente. Não parecia preocupada em perguntar se aquilo combinava com a sua idade. Ainda bem!
Talvez fosse essa a adolescência que minha mãe reconhecia nela. Não uma tentativa de voltar a ser jovem, mas uma curiosidade que continuava viva. Uma vontade de experimentar, aprender, conversar, dançar e descobrir quem mais ela poderia ser. Minha avó não teve uma única adolescência. Ela se redescobria a cada dia.
A costureira que fez calças para trabalhar quando esperavam que usasse vestidos era a mesma mulher que, décadas depois, atravessava noites conversando nas redes sociais. Mudavam as ferramentas, os tecidos e os tempos... mas havia nela uma disposição permanente para criar outras formas de existir.
Cresci perto de mulheres que faziam coisas com as mãos, inventavam e transformavam materiais. Com a vó Zena aprendi a fazer crochê, tricô, cozinhar, fazer doces, costurar e criar bonecas. Elas atravessaram diferentes momentos da minha vida e hoje são uma das minhas linguagens criativas. Continuo fazendo uma por uma... e nenhuma fica exatamente igual à outra. Essa é a magia!
Nunca tive muita atração pelo perfeitamente igual. Gosto do detalhe que muda, daquilo que escapa da repetição, das pequenas diferenças que fazem alguma coisa ser só aquela e nenhuma outra. As singularidades me encantam nas bonecas e nas pessoas.
A vó Zena também me ensinou que, quando uma roupa já não serve, precisamos olhar novamente para o tecido. Abrir uma costura, ajustar uma medida, retirar um excesso e encontrar outra forma. Nem sempre jogar tudo fora. Nem sempre manter tudo como estava. Às vezes, transformar.
Hoje percebo que essa foi uma das maiores heranças que recebi dela. Não apenas as bonecas ou o trabalho com as mãos. Minha avó me deixou a possibilidade de me recriar.
E foi da frase da minha mãe sobre a “pior adolescente que conhecia” que começou a nascer a Maturescência. Uma adolescência da maturidade... com mais histórias, alguns calores inesperados e bem menos paciência para certas bobagens.
Não se trata de voltar a ser jovem. Trata-se de reconhecer que continuamos mudando. A menopausa participa dessa travessia, mas não conta a história inteira. Os hormônios explicam algumas coisas... não explicam a mulher toda.
Há desejos que ficaram esperando, cansaços que já não aceitam ser ignorados e partes nossas querendo voltar. Há também perguntas que chegam sem cerimônia: o que ainda é meu? O que desejo continuar carregando? O que já cumpriu sua função? Quem sou quando não preciso mais provar que dou conta de tudo?
Hoje, minha mãe e minha avó já não estão aqui fisicamente. Ainda assim, a Maturescência nasce de uma conversa entre nós três. Da mulher que viveu sua transformação. Da filha que percebeu nela uma adolescente. E da neta que, muitos anos depois, encontrou uma palavra para aquela travessia.
A ausência física das duas não encerrou essa conversa. Ela continua nas minhas mãos, nas bonecas, nas lembranças, nas perguntas e na mulher que também estou me tornando.
Por isso, a Maturescência nasce como uma proposta de travessia coletiva. Nenhuma mulher deveria precisar passar sozinha por uma fase tão cheia de mudanças. Precisamos de casas cheias de amigas, mesmo que algumas dessas casas sejam virtuais. Precisamos de conversa, criação, escuta, arte, humor e espaço para existir sem fingir que nada está acontecendo.
Maturescência é esse espaço entre mulheres. Um lugar para falar sobre corpo, identidade, trabalho, relações, desejos, limites, memória e futuro. Para usar a escrita, a arte, a troca e a Arteterapia como caminhos de elaboração e criação.
Não quero ensinar uma maneira correta de envelhecer. Já passamos tempo demais tentando corresponder aos moldes que desenharam para nós. Minha avó fez os próprios slacks. Agora chegou a nossa vez de criar outros moldes. Com amigas por perto... e, quem sabe, alguma vontade de dançar.
Minha avó Zena viveu essa travessia. Minha mãe percebeu. E hoje eu consigo nomear: MATURESCÊNCIA...
Uma vida inteira dentro de nós.E outra ainda pela frente.